As eleições legislativas a ter lugar no próximo dia 5 de Junho têm sido apresentadas, pelos meios de comunicação social, ao povo português como um meio de escolher o próximo primeiro ministro, como se a escolha fosse apenas entre Sócrates e Passos Coelho. Ora, isso não é assim tão simples. Estas eleições são muito mais do que isso. Em primeiro lugar são para eleger deputados que "representem" os diferentes distritos do País. Este representam entre aspas significa uma dupla e triste realidade: é que as listas de candidatos a deputados são "cozinhadas" pelos chefes e pelos aparelhos partidários e incluem, em muitos casos, pessoas que não são naturais nem vivem nos distritos por onde se candidatam, pelo que desconhecem os problemas desses distritos e logo dos seus habitantes e eleitores. Nada os liga a esse distrito, por isso, em regra, não defendem nem se empenham na melhoria da vida e dos problemas de quem os elegeu. Grande parte das vezes são naturais de Lisboa ou pessoas que lá se fixaram e têm uma visão lisboeta e não regional dos problemas nacionais e locais, pautada por esse afastamento e desconhecimento. A sua escolha deve-se ao facto de serem tantos que não cabem nas listas da capital e por serem fiéis e obedientes aos chefes e aos seus interesses. Outros candidatos, embora naturais ou vivendo no distrito são eleitos mas depois, perante as pressões e acusações de "provincianismo" não têm coragem para defender a sua terra e distrito e rendem-se aos valores e interesses do centralismo e colonialismo lisboeta, pois muitos deles já foram colonizados nas suas opções desportivas e, por essa razão, torna-se mais fácil a sua rendição aos outros valores e interesses da capital. Essa submissão permite-lhes subir no partido, serem nomeados para cargos em empresas do estado ou em institutos públicos, dá-lhes visibilidade nas televisões e imprensa e, até, nalguns casos uma participação no governo, em postos mais ou menos subalternos. Exemplos não faltam. Retirados da política há sempre lugares de gestão, acessorias e outras recompensas para os fiéis e obedientes.
Outro problema é a constante substituição dos deputados eleitos por outros que estão abaixo nas listas, o que defrauda as eleições pois muitos que se sentam no hemiciclo de S. Bento não foram eleitos, são apenas suplentes que estão a substituir os verdadeiros eleitos. Já tem acontecido que, de substituição em substituição se torne deputado o último da lista candidata, como aconteceu no PS com o célebre Manuel 25. Se, por vezes, estas substituições revelam gente com valor, a verdade é que na sua maioria esses substitutos têm menos qualidade e muitos nem têm sequer experiência de vida ou conhecimentos que se vejam e passam o tempo sentados e a votar como os mandam, havendo casos de gente dessa que nunca abriu a boca para intervir nos debates parlamentares. Já nem quero referir em pormenor o facto de muitas deputadas o serem pelo simples facto de serem mulheres, devido às quotas impostas e não ao seu valor, o que não quer dizer que algumas não o possuam.
Problemas fundamentais como a excessiva concentração do poder e de gastos do Erário Público ou de dinheiro da União Europeia na região de Lisboa, o adiamento da regionalização e da autonomia necessárias em várias regiões do País, a agricultura, as pescas, as indústrias, os transportes, a energia,a educação, a cultura, a justiça, a administração tributária, a administração interna que não garante a segurança e muitos outros campos da vida nacional são exemplos da profunda crise de valores e eficácia que nos levou à actual e grave crise e decadência que atravessamos. Os cidadãos queixam-se que a sua vida se tem agravado: cortes nos salários e reformas, aumento nos impostos e na saúde, no desemprego, pior educação e saúde públicas, atrasos e falta de uma justiça eficaz, o congelamento das rendas que só favoreceu os inquilinos antigos que pagam uma ninharia por casas ou apartamentos no centro ou boas zonas das cidades, enquanto quem quer uma casa tem de se endividar a um banco ou procurar uma casa que possa arrendar, o que tem provocado o abandono das grandes cidades e a sua degradação pois essas pessoas têm de se mudar para as periferias onde podem encontrar uma casa ou renda mais baixas.
Perante tudo isto, o nosso país tem-se afundado cada vez mais e, se a existência de uma maioria absoluta poderá permitir a um partido o seu programa, a realidade é que, uma vez no poder, os políticos e partidos que nos têm governado se têm esquecido das suas promessas e programa eleitorais, como fizeram, entre outros, Cavaco Silva e Sócrates. Assim sendo, a culpa da nossa realidade actual é dos políticos e partidos que nos têm governado (PS,PSD e CDS), mas também da maioria do povo português, como adiante explicitarei.
Tanto quanto sei, vão concorrer em todos ou só em parte dos círculos eleitorais, entre partidos e coligações 17 formações políticas. As 5 mais conhecidas estão largamente em vantagem, não só pelo dinheiro que têm recebido do estado, consoante os votos recebidos, mas também pela cobertura mediática que as televisões e imprensa lhes dão, contribuindo para tornar conhecidos os seus líderes e ideias. Os restantes são pequenos partidos, alguns já antigos e outros de formação e actividade mais recentes. Estes partidos estão em clara desvantagem pois as televisões e imprensa pouco ou nada lhes ligam e têm poucos recursos económicos para se tornarem mais conhecidos e às suas propostas.
Perante esta realidade que poderá fazer um cidadão eleitor?
Infelizmente, a maioria dos portugueses tem tido algumas posições diversas que têm contribuído para a triste "democracia" que temos suportado. Muitos, após o 25 de Abril, adoptaram como seu um partido e votam sempre nele, indiferentes às suas propostas e chefes. Votam no "seu" partido mesmo que o dirigente a escolher seja um demagogo ou um aldrabão. Votam na lista do partido para as eleições legislativas e depois queixam-se que os deputados não fazem nada por eles e a sua terra ou fazem mal e nem sequer sabem quem são os deputados em quem votaram. Recebem a resposta que, uma vez eleitos, os deputados representam a nação e não os seus eleitores. Isso é para países "atrasados" como o Reino Unido ou os Estados Unidos da América em que os cidadãos conhecem e exigem acção aos deputados que elegem para os órgãos legislativos. Outros, votam contra o governo e optam por votar no partido cujo chefe tenha mais possibilidades de alcançar o poder, mesmo que não gostem dele, engolem o "sapo". Outros pensam: estes no poder já os conheço e os outros não, por isso podem ser piores e portanto prefiro votar nestes que estão no poder. A tudo isto ajuda a propaganda dos partidos, a fuga à discussão dos assuntos mais importantes e criam-se factos ou diversões para distrair os eleitores dos verdadeiros problemas. Claro que a influência política e a falta de isenção da comunicação social com muitos políticos infiltrados ajuda em toda esta situação. Restam aqueles que, por não se identificarem com nenhum partido ou não gostarem do que lhes apresentam, votam nulo, em branco ou resolvem não votar, engrossando a abstenção. O resultado foi cairmos num rotativismo partidário que, à semelhança da segunda metade do século XIX, nos levou outra vez à bancarrota e à crise social e de valores. Resta referir os muitos milhares de portugueses e respectivas famílias que têm vivido à custa da política, nos vários partidos e que querem manter os seus lugares na administração pública, nas empresas estatais e organismos públicos ou que têm negócios com o estado ou vivem de lhe prestar serviços.
Então, que fazer? No estado a que chegamos torna-se necessária uma profunda mudança. Se com os principais partidos verificamos que as suas propostas são mais do mesmo, que muitos desses políticos são velhos de ideias ou que só lhes interessa o seu interesse pessoal ou partidário, então os portugueses deveriam virar-se e prestar atenção aos pequenos partidos, mais antigos ou mais recentes, conhecer as suas ideias e programas e dar o seu voto ao que achassem mais de acordo com as suas ideias. Uma assembleia com deputados de outros partidos, mesmo que poucos, traria deputados não enfeudados aos interesses dominantes, seria uma lufada de ar fresco e um enriquecimento desse órgão, com gente e ideias novas, tornando-se mais representativo das diferentes opiniões dos portugueses. Alguns deputados destes partidos mudariam o sistema e os interesses instalados dos velhos partidos, mal habituados a não nos prestarem contas das suas acções e más políticas.
Porque não votar no MEP, PTP, PNR, MPT, PPV, PH, no novo PAN, no PDA (que inclui nos distritos do Norte, como independentes, elementos do Movimento Pró Partido do Norte)? Ou em partidos mais antigos como o PCTP/MRPP, o PPM, o PND ou o POUS? Todos têm as suas ideias e algumas são inovadoras.
Lamento ter de o dizer, mas a verdade é que a culpa da nossa situação actual se é principalmente dos políticos e partidos que nos têm governado mal, também a maioria do povo português tem a sua parte de culpa, pois tem acreditado em vendedores de promessas e de falsidades e tem votado de forma pouco esclarecida e até leviana em políticos mentirosos que lhe continuam a mentir e as pessoas têm memória curta, pelo que se esquecem do que eles prometeram e são incapazes de confrontar essas promessas com a sua acção. Isto além, claro, do que já afirmei, daqueles que votam sempre no "seu" partido, por mais aldrabão e incapaz que seja o candidato dessa formação política. Por isso, com gente dessa no poder ou na oposição chegamos à actual situação.
Se queremos mudar, temos de mudar de atitude. Exigir responsabilidades e julgamento dos políticos que governem mal ou sejam corruptos, procurar acabar com as clientelas partidárias e os cidadãos passarem a intervir mais na política, através de movimentos de cidadãos como estamos a ver em outros países. Votar também nos partidos mais pequenos e menos conhecidos para uma maior representatividade do povo português no poder legislativo pois é para isso que vamos votar no dia 5 de Junho próximo.
Declaração de interesses:
Como cidadão portuense de nascimento, defensor dos valores da minha cidade e região, nortenho convicto e regionalista desde há muito, perante a panóplia de escolha dos vários partidos que concorrem no meu distrito, verifico que o partido que se aproxima mais das minhas ideias (embora não totalmente) é o Movimento Pró Partido do Norte que concorre, com elementos seus na qualidade de independentes, nas listas do PDA nos distritos do Porto, Braga, Viana, Vila Real, Bragança, Aveiro, Viseu e Guarda. Por isso, prefiro de longe a eleição de Pedro Baptista como deputado pelo distrito do Porto, pois é alguém que eu conheço desde antes do 25 de Abril e cuja carreira política acompanhei, inclusivamente quando foi deputado pelo PS. Muitas das suas ideias e propostas são as que sempre defendi, desde há muito, como quem me conhece pessoalmente sabe ou quem já leu neste blog o que tenho escrito ou alguns comentários meus noutros blogs.
Vale mais um deputado defensor do Porto e do Norte do que vários lisboetas que concorrem por outros partidos pelo distrito do Porto ou certos políticos do distrito do Porto mas que sempre se vergaram e colaboraram com o centralismo e colonialismo lisboetas, levando o Norte e Portugal à gravíssima situação em que se encontram.
Assim, por uma questão de princípio e de coerência pessoal, o meu voto só poderá ser esse: PDA (MPP)
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